Paulo Cidmil. (Foto: Divulgação)
Notícia do dia 11/02/2025
Quando não há o que dizer ou fazer, é possível criar algo para chamar atenção. Enquanto o asfalto correria da campanha eleitoral é carregado pelas chuvas, anunciando coisa pior.
O governo municipal, ansioso para anunciar novidades acaba de lançar o Sairé 2025. Sim, o Çairé com “S”. Voltam a alimentar uma polêmica, sempre resolvida de cima pra baixo.
O poder é uma brisa efêmera que embriaga os egos desprovidos de sabedoria. Existem iluminados que se acham a última cocada no tabuleiro da baiana.
Eles tudo sabem, estão plenos de certezas, projetos perfeitos, com nenhum tempo e ouvidos para escutar as recalcadas e os incompetentes que atrapalham.
A quem interessa definir a grafia mais adequada para essa festa e rito religioso? A quem pertence essa festividade? Quem a manteve viva até os dias atuais, agora com reconhecimento nacional? Senão os habitantes da vila quase cidade de Alter do Chão.
Poucos lugares tem a vida social e cultural tão bem organizada como Alter do Chão. Há um Conselho Comunitário, são muitas as organizações culturais, há comissões organizadas para todos os grandes eventos, há organizações de empreendedores, há escolas com participação comunitária.
Qual a dificuldade de se promover um amplo debate e plebiscito para que a vila defina qual a grafia que prefere, ou até mesmo, se deve considerar as duas como corretas.
Mas não, os sábios momentaneamente empoderados, fizeram suas consultas, e com saudades de Maria, após 12 anos, meteram a caneta e mudaram tudo.
Marotamente propagam que agora é lei. Divulgando Decreto Federal 14997/2024, que define a festa do Çairé como patrimônio cultural brasileiro.
A lei é estritamente sobre a relevância do evento no contexto da cultura nacional, ela sequer menciona algo sobre grafia correta.
É regra na administração pública, seguir estrita observância da dita norma culta da língua portuguesa, assim, o burocrata que rediz a lei, a escreve com “S”.
Quem sugeriu ao poder público sobre a importância do Çairé, deveria contextualizar o fato de o evento ser grafado Çairé e Sairé. Essa é uma questão a ser definida no âmbito cultural.
Mas alguns espertelecos, após intensivão realizado com a equipe de Helder Barbalho, durante sua longa estadia eleitoral no Tapajós, aderiram a prática do cinismo e a técnica de como se pode manipular um fato para enganar o leitor/eleitor. Mentem! Não há lei federal definindo Çairé com “S”.
Sempre defendi a palavra Çairé por sua origem na língua Nheengatu Tupi. Assim como os nativos de Alter, detentores da festa, tem sua origem predominantemente Indígena e muitos acrescentam ao nome, o Borari, como definição de origem ancestral.
Especialmente agora, quando milhares de amazônidas, urbanos e ribeirinhos, apropriam-se de sua ancestralidade acrescentando ao seu nome palavras definidoras de pertencimento como Borari, Arapiun, Baré, Tupinabarana, Tapajó, Munduruku.
Há uma revolução em curso que irá mudar o senso demográfico na Amazônia e silenciosamente promoverá muitas transformações nas relações sociais, culturais e religiosas. Enriquecendo ainda mais nossa cultura e conhecimento.
Há 100 anos, o manifesto modernista Poesia Pau Brasil afirmava “A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos”.
E no Manifesto Antropofágico de 1928, fechando o ciclo modernista que inicia em 1922, abre com fina ironia, parafraseando e se apropriando antropofagicamente de Shakespeare, questiona “Tupi, or not Tupi, that is the question”.
Os iluminados, como todo ser dotado de grande erudição, sabem, que assim como a cultura, a linguagem vive em constante transformação, assimilando novas expressões de seu tempo e resgatando e ressignificando palavras cuja origem provem de um tempo ancestral. ÇAIRÉ!
Aproveito o momento de merecido descanso, junto com o nosso ex prefeito, quando visitaram o mangueirão para ver nosso flamengo jogar, e sugiro ao prefeito que convoque sua entourage turística cultural para visitarem a cidade de Sairé.
Fica no agreste pernambucano, lugar bucólico, de clima ameno, com exuberante parque natural, castelo, rico artesanato e onde coincidentemente a padroeira é Nossa Senhora da Conceição.
Em Sairé sua equipe pode trocar valiosas informações para o desenvolvimento do Sairé santareno.
"O autor é diretor de produção artística e ativista cultural".