Presidente Lula durante visita a Alter do Chão, em Santarém, em 2023 ( Foto: Ricardo Stuckert )
Notícia do dia 02/11/2025
Que honra para Santarém, Belterra e a região da Floresta Modelo Amazonas Tapajós, (FLOMAT), em menos de dois anos, termos a visita do Presidente da República do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva e sua esposa Janja.
A primeira visita deixou como legado o curso de Medicina para a Ufopa. E dessa vez? Qual legado deixará?
Ter a visita de presidente, não é nada corriqueiro, mas depois que Alter do Chão e o Rio Tapajós, viraram fenômenos mundiais do Turismo, querer conhecer e estar em um lugar tão maravilhoso e único em belezas naturais, virou um sonho no mundo, sendo hoje natural termos personalidades nos visitando.
Alter tem o Sairé e uma cultura muito própria de um povo acolhedor. Santarém, além da música, da poesia e das artes, tem uma das culinárias mais expressivas e é reconhecida pela arqueologia brasileira, como a cidade mais antiga do Brasil, fato chancelado nada menos que por Eduardo Góes Neves que tem trabalhos exposto no mundo, como na Bienal de arquitetura de Veneza, aqui na Itália.
Entretanto, temos nossos problemas que precisam ser olhados com muito carinho pelo presidente e juntos buscarmos as soluções para que este paraíso não seja rapidamente perdido. Políticas adequadas para este território, visando uma gestão integrada destes territórios precisam ser construídas a partir da escuta apreciativa.
Como professor, realizando pós-doutorado em Conservação da Natureza e Patrimônios Culturais, faço algumas considerações a esta rápida visita, mas que pode gerar bons frutos, dado a COP 30 ser realizada em Belém.
Nos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro, foi criado através de inúmeras instituições locais, nacionais e estrangeiras, a Floresta Modelo Amazonas Tapajós e trabalhada pelo Serviço Florestal Brasileiro desde 2102, mas efetivada em 2017 pela Rede Latino Americana de Bosques Modelo.
Seguindo proposta do governo canadense na ECO 92, após 33 anos, 5 Florestas Modelos existem no Brasil, sendo além da nossa (FLOMAT), 2 em Minas Gerais, uma na Hileia Baiana e uma no Pantanal, todas com suas respectivas importâncias para seus biomas.
A Flomat com 4.082.000 ha, apresenta aspectos fundamentais como: as populações da Floresta Nacional do Tapajós e da Resex Tapajós Arapiuns, naturalmente já se reconheceram como floresta modelo, pois todos os princípios definidos, são seguidos inclusive o fato de suas populações terem lutado desde 1974 e 1998 para terem um processo de uso que garante a floresta em pé, a partir de uso coletivo.
Ambas as áreas hoje visitada pelo presidente Lula, são conservadas em sua plenitude e o maior ganho está no direito de uso comunitário, tendo de um lado a Coomflona, que é uma cooperativa de uso múltiplo, realizando o manejo florestal totalmente comunitário, gerando em torno de 300 empregos diretos e inúmeros benefícios indiretos, como os serviços ecossistêmicos e a preservação de uma saber próprio da relação homem natureza, segue respeitos ancestrais e conhecimentos da arvores, plantas medicinais, animais e próprios rio e igarapés, como seus parentes.
Do outro lado, temos toda uma dinâmica que vem sendo fortalecida com inúmeras autoafirmações indígenas que de certa forma tem gerado alguns conflitos com os caboclos ribeirinhos, mas no geral tem trazido muitas reflexões de convivência e avanços no uso múltiplo da floresta, como o belo artesanato de talhas de tucumã, a intensa produção de mel de melíponas, a produção de peixes nos rios com alimentação de produtos naturais e a chegada de postos de saúde apropriados e criação de brigadas contra incêndios florestais, tudo sendo usufruído através de acordos que respeitam protocolos locais.
Fortalecer o turismo nas comunidades que possuem turismo de base comunitário como o das comunidades Vista Alegre do Capixauã, Coroca, Jamaraquá e Maguary é muito necessário, mas sobretudo investir no uso múltiplo, na educação através da pedagogia da alternância como a aplicada na Casa Familiar Rural da Comunidade de Santa Maria, liderada pela dona Odila, trará um legado formidável para todas as comunidades não só da Flona Tapajós e da Resex Tapajós Arapiuns, mas de todos os Projetos de Assentamentos Extrativistas como o Pae Lago Grande e o Pae Eixo Forte, incluindo as Vilas de Alter do Chão e Aramanaí, levando para outros municípios como por exemplo Itaituba, que tem o maravilhoso Parque Nacional da Amazônia, a certeza de que é possível conciliar Desenvolvimento com Conservação, sendo esta área um novo modelo para o Brasil, que traga novos tempos para humanizar a governança territorial do Tapajós aliado aos fundamentos do Bem Viver, legado baseado na reciprocidade, interdependência e coexistência, deixado pelo povo que construiu e mantem a maior floresta tropical do mundo: A Floresta amazônica que todos aqui amam e respeitam muito.
*Os autores
Professor doutor Jackson Fernando Rêgo Matos, Ibep-Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará), pós-doutorando na Universidade de Siena (Itália).
Franciane Aguiar Santana Matos, líder da Flomat (Floresta Modelo do Amazonas Tapajós)
