(Foto: Ozeas Santos/Alepa)
Notícia do dia 08/10/2021
DEAMAZÔNIA OURILÂNDIA, PA - A Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa), que investiga a atuação da Vale em território paraense e seus impactos ambientais e socioeconômicos, realizou audiências públicas nos dias 06 e 07 em Ourilândia do Norte e Redenção e reunião com moradores de comunidades rurais atingidos pelo projeto de exploração de níquel na mina Onça Puma.
A CPI ouviu relatos sobre passivos sociais, econômicos, culturais e ambientais provocados pela mineração. Os trabalhos foram conduzidos pelo vice-presidente da comissão, deputado Carlos Bordalo.
O projeto Onça Puma responde pela produção de níquel da Vale no Brasil e em 2020 somou 16 mil toneladas. A produção total da empresa somou 215 mil toneladas do metal no ano passado.

Na contramão do discurso de desenvolvimento prometido pela mineradora, os pequenos agricultores relataram que vivem isolados e sem apoio algum da empresa. Além da poluição sonora, existem graves problemas de saúde, contaminação do solo, da água e do ar, o que torna inviável a permanência no local e a prática das atividades agrícolas.
As 62 famílias da comunidade de Campos Altos são as que mais sofrem os prejuízos, por estarem mais próximas ao complexo minerário.
O presidente da Associação de Campos Altos, Otaviano José de Araújo, de 61 anos, possui uma pequena área rural, distante a 2 km da mina. Ele relatou as dificuldades que enfrenta com o início das atividades de exploração mineral.

“Aqui não tem mais condições para continuar morando. Depois que a Vale entrou na região acabou com tudo e a cada dia fica pior. Não temos mais água de qualidade, sofro com esse barulho de sirene e fuligem da produção mineral. Toda vez que a gente procura a Vale tem sempre uma desculpa, diálogo não existe”, reiterou.
Diante de um modelo de produção imposto pela mineradora que busca expandir seus negócios, por outro lado existe a exclusão de agricultores que residem há décadas na região próxima à área de mineração. A única saída é procurar outros caminhos para seguir a vida. Esse é o caso da agricultora Cássia Camargo.
“O problema de insegurança e a falta de apoio nos deixa sem saída a não ser ir embora daqui. Vender está difícil porque ninguém quer morar aqui. Estou cansada de lutar e não ver solução, então prefiro deixar, vou sentir muito, mas do jeito que está não dá mais. Mas quero indenização para sair e com preço justo”, afirmou.
Além da poluição sonora, que afeta não somente às pessoas e também os animais, a falta de condições de permanência no local vem afetando a saúde física e emocional dos moradores.
“Com as sirenes, o gado fica assustado, sai disparado toda vez que ouve o som, e muitas vezes fica machucado porque acaba caindo. Outra questão é a saúde, minha filha está com problemas respiratórios e com presença de níquel no sangue, comprovados por exames médicos. Já teve pessoas que cometeram suicídio por causa dessa situação e os casos de depressão são constantes”, destacou o agricultor Lindon Jonson Costa Neves.
“Onde a Vale entrou, as famílias tiveram que sair pela inviabilidade e falta de estrutura e apoio por parte da mineradora e da prefeitura. Onde tinha moradores, hoje é só mata e isso atraiu muitas onças pintadas para a região, o que causa grande insegurança de moradia”, relatou Antônio Bento.
“Estou preocupado porque a situação de Ourilândia do Norte inspira cuidados, nós temos famílias que não sabem como será o amanhã, e isso não se resolve há anos, não sabem se poderão ficar na área, as suas indenizações não são feitas. Por outro lado, a empresa não diz se pretende ou não requisitar a área. Existe um claro jogo de empurra onde não se leva em conta o fator principal, que é o fator humano”, enfatizou Bordalo.

