Ivo Oliveira, presidente da Associação de Empreendedores de Turismo em Meios de Hospedagens de Alter do Chão
Notícia do dia 05/02/2022
Relato da situação do povo de Alter do Chão Ao longo dos últimos meses vivenciamos um boom de turistas vindo para nossa região novamente, apesar dos problemas que afligem todo o Planeta, e assim como era previsto em todos os lugares turísticos, haveria uma procura grande no momento pós-pandemia em sua 2ª onda, ou 3ª ou 4ª...
Mesmo nesses períodos em que todos os olhos estavam nos altos e baixos dos números da pandemia pudemos constatar que isso diretamente não interferiu nas escolhas dos turistas. Tivemos um número de cancelamentos dentro da normalidade.
Não houve qualquer ação governamental para atrair turistas, nem para corrigir problemas que são históricos em Alter do Chão e apesar desse abandono tivemos movimentação em nossa economia.
Apesar dos problemas previsíveis e do abandono já acostumado para com nosso povo, o Turismo foi um sucesso! Muito em decorrência do trabalho do povo aqui mesmo, que tem que fazer as coisas “no braço”, do jeito que dá, do jeito que se pode...
Alter do Chão tem a participação direta de grande parte dos seus moradores no que vem a ser o nosso Turismo.
Este segmento responde, segundo pesquisas recentes, por mais de 25% da economia de toda a nossa Santarém. Ou seja, 1/4 de todo dinheiro que circulou em nosso Município nos últimos 3 meses foi deixado aqui por alguém que está de passagem, está em férias ou em viagem a trabalho, mas que está, com certeza, encantado com alguma de nossas belezas naturais, porque é isso que move todo o segmento.
Isso indica que quando falo de Turismo não estou falando do meu empreendimento, nem da Associação representativa em que estou a frente. Cada morador da nossa Vila é parte do Turismo, seja por trabalhar diretamente, seja por empreender diretamente, ou seja ainda porque vende uma iguaria na praça ou faz um artefato artesanal, ou também por participar da cultura local ou porque conduz uma embarcação transportando essas pessoas que vem de fora nos visitar.
Eu, represento a Associação dos Empreendedores de Turismo de Alter do Chão, focados em Meios de Hospedagens, ou seja, hotéis, pousadas e afins. Estes são os nossos requisitos para ser associado, mas além disso, para muito além disso, nossos interesses são de ver uma comunidade melhor cuidada, com seus problemas enxergados, por quem pode resolver, e assim quando a gente tem a sensação de que nossa comunidade está bem, qualquer turista que vier para cá vai se sentir bem, também. Cuidar de cada pessoa começa com o “cuidar dos nossos”.
Enquanto estiver presidente da AETHA, falo em público, opino aberto e claramente sobre os problemas que temos e que são sabidos, notórios e em grande parte estão aí há anos... e brigo no que puder, para que cada morador seja respeitado, seja atendido, seja ouvido, naquilo que vem a ser o que chamamos de dignidade.
Quando me posiciono - não somente tenho representado a AETHA - como tenho falado por muitos moradores de Alter, que podem se sentir defendidos de alguma maneira. Portanto, nossa prioridade é ter o equilíbrio entre o desenvolvimento com o bem estar do morador local, e nesse equilíbrio priorizar a preservação do meio ambiente e valorizar a cultura regional.
A sensação que se tem é de que o braço do Poder Público chegou ali, fez algo e depois desapareceu... ou pior ainda, parece que não sabe o que se passa ali, nem quer saber, minimamente, como se nunca tivesse ido. Por isso, as coisas não melhoram, e entra mês e sai mês e nada de solução para os problemas apontados.
Porém, os entes públicos a que me refiro participaram e promoveram o evento que culminou em uma premiação, no ano de 2021, que mencionava essa “terra abandonada” como sendo o “Melhor destino turístico daquele ano” (https://g1.globo.com/pa/santarem-regiao/noticia/2021/09/28/alter-do-chaovence-premio-upis-na-categoria-melhor-destino-turistico-nacional.ghtml).
Prêmios e reportagens positivas vem e vão e nada de melhoria se observa...
Isso aí nunca chega ao morador... algo intrigante... para reflexões. O que vem de bom para o morador, com um prêmio desse? O que desse título atribuído aí nesse prêmio trouxe de melhoria para a comunidade?...
Dentre os problemas, que menciono aqui, como sendo alvos de cobrança constante estão aqueles que dependem de ações governamentais, mas tem os que dependem de uma mudança de cultura, de caráter comportamental de cada morador, isso é inegável. Temos portanto, o papel de juntar forças para cobrar medidas que não ocorrem dos gestores públicos, mas temos que juntar forças para resolver as questões internas, o que já está sendo trabalhado para corrigir.
Um dos compromissos que temos na AETHA, por exemplo, é promover a capacitação em massa, resolvendo problemas crônicos como o atendimento ao público, contando na verdade com o apoio total do SEBRAE e do SENAC, já anunciados e alinhados.
Esta ação vai ocorrer em massa, para toda a comunidade, a ponto de termos aí uma criação de um Banco de Talentos, que pode colaborar para o início de uma mudança de cultura, com geração de empregos e oportunidades, integração da comunidade de forma mais profissional, ao eixo da economia local que mais se respira aqui, entre outros benefícios.
Além desses programas ainda temos questões outras que são pontos de melhoria e que requerem ações mais abrangentes em nossa região… Essas dependem de ações mais complexas, mas é importante que todos tenhamos noção a respeito. Por exemplo: temos a pulsante necessidade de melhorar a malha aérea, transformar o Aeroporto de Santarém em um ponto mais relevante no sistema aéreo e isso virá a acarretar em passagens aéreas com menor custo, entre outras coisas…
E se formos falar de segurança jurídica para investidores, a participação de ONGs, a regularização fundiária e as demais questões ambientais… são assuntos que ganham conotações longas, para diversos caminhos diferentes… tudo está em Alter do Chão, mas, obviamente nem tudo podemos resolver.
As questões que levantamos, que pedimos, cobramos e as que nós mesmos podemos agir para colaborar e quem sabe até resolver, são as que a gente aborda com mais ênfase.
Mas… O problema mais gritante agora é outro! Não bastassem os antigos agora temos um recente.
Estamos no início de fevereiro, e se observa a queda drástica em vendas, cancelamentos aos montes de reservas, e uma Alter do Chão a pleno vapor, com sol bonito de um verão (sol este que tenta ir embora, mas ainda não foi) ...águas com seu volume em processo de cheia, mas que ainda se pode ver claramente praias, talvez no ponto mais alto das belezas naturais em grande parte das opções de passeios em nossa região... mas cadê o turista? Sumiu!
A tal da “baixa temporada” é uma ilusão de mercado que se convencionou e se acostumou como cultura imposta e se trata de entender (ou não) os dois momentos da natureza em nossa região, em nosso Rio Tapajós, principalmente. A alta se refere ao volume de águas, que fica desde agora até o mês de Junho e a baixa dos rios que se inicia logo ali, no meio do ano, e mantém os níveis baixos até o próximo janeiro.
O conflito que se faz é achar que a baixa temporada é o mesmo que a “alta dos rios” e se ouve, claramente, frases assim: “Não vai entre fevereiro e junho que não tem nada lá!”; isso vira senso comum e daqui a pouco se tem uma verdade absoluta, difícil de mudar e quase impossível de se refazer. Mas um dia a gente chega lá!
Isso é uma outra questão, brigar para transformar essa cultura equivocada em oportunidades de negócio, em geração de emprego e renda, em possibilidades de desenvolvimento, ocasionando uma baixa nas vendas de forma natural, como em todo lugar, mas dentro do limite normal dos diversos pontos turísticos que temos no Brasil. A economia gira, coisas boas acontecem, todos ganham...
No próximo artigo ( PARTE II), vamos continuar trazendo reflexões, levantando probletizações, apontando encaminhamentos e abordando a atual realidade de Alter do Chão, e desde já, lamentar por ninguém se preocupar com seus moradores.
*O autor é presidente da Associação de Empreendedores de Turismo em Meios de Hospedagens de Alter do Chão, em Santarém, Oeste do Pará*

