Diretores da Vale, Hugo Barreto e Rafael Martinez
Notícia do dia 22/09/2021
DEAMAZÔNIA BELÉM, PA - Durante oitivas nesta terça – feira (21.09), os deputados que compõem a Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI da Vale, na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) pediram esclarecimentos ao diretor de Investimento e Desenvolvimento Social, Hugo Barreto e ao Gerente Executivo de Desenvolvimento Territorial e Relacionamento com Comunidades, Rafael Martinez, sobre reparações de danos ambientais e sociais causados pela companhia, planos de segurança de barragens e investimentos em projetos estratégicos.
A maior parte das perguntas foram direcionadas ao Hugo Barreto, mas muitas questões continuaram sem respostas. O primeiro a fazer os questionamentos, foi o relator da CPI, deputado Igor Normando.
Preocupado com a falta de prioridade da empresa na aplicação de ações efetivas de investimentos, o parlamentar quis saber qual o valor do montante de lucratividade investida pela Vale no estado.
Em resposta, o executivo Hugo Barreto, que é o responsável pelos investimentos nas áreas sociais, não soube responder.
O diretor disse apenas que nas ações voluntárias foram investidos 70 milhões de dólares, mas sobre os investimentos sociais e socioeconômicos executados pela empresa de forma global, afirmou que “tem uma série de outras contribuições que não é a minha área de atuação”.
Em relação à área de trabalho do executivo, o deputado Igor Normando pediu informações sobre valores de investimentos para atender áreas sociais e comunidades afetadas no estado, considerando o faturamento global da mineradora.
E mais uma vez, Hugo Barreto disse que não tinha as informações e se comprometeu averiguar para responder aos questionamentos por meio de documentos.
‘É impressionante que ninguém sabe informar nada. A gente pergunta e respondem: não sei. Não é possível que não saibam de nada. Eu quero saber quem é que sabe”, afirmou o vice-presidente da CPI, deputado Carlos Bordalo (PT).
Em um demonstrativo apresentado pelo diretor de Investimento e Desenvolvimento Social, a companhia que teve um faturamento de quase R$ 40 bilhões no último trimestre, aplicou apenas R$ 1 bilhão de reais em investimentos sociais no estado no período de seis anos ( 2015 a 2020).

BAIXO INVESTIMENTO NO PARÁ
De acordo com o parlamentar, esses números representam muito pouco diante do que o Pará significa para a mineradora no contexto geral.
“Esses valores estão bem abaixo do que o nosso estado contribui para a Vale. Não é justo ver esse percentual aplicado, é quase nada de investimentos diante do seu faturamento. Infelizmente, não se vê na empresa um comprometimento com os atingidos por barragens e comunidades afetadas”, criticou o deputado Igor Normando.
MÃO DE OBRA PARAENSE
A prioridade na contratação de mão de obra local por parte da empresa também foi questionada. Grande parte dos empregos gerados no Pará pela mineradora, em sua maioria não é ocupado por paraenses.
“A Vale nessa questão social poderia não só contratar mais paraenses, mas qualificar os próprios moradores das nossas regiões onde estão instalados os projetos da empresa. É fácil falar que a companhia gera muitos empregos quando a maioria dos empregados, infelizmente não são cidadãos do Pará”, argumentou o relator da CPI.
BARRAGENS - A preocupação com a segurança de barragens foi alvo de questionamentos pelo vice-presidente da CPI, deputado Carlos Bordalo. Para ele esses instrumentos preventivos são essenciais.
“Depois que vimos o que ocorreu em Brumadinho e Mariana, essa ação preventiva e garantidora de segurança é importante”, destacou.
De acordo com o Sistema Nacional de Informações de Segurança de Barragens – SISNB, a Vale possui 57 barragens no Pará, sendo que 42 não possuem sistema de segurança de barragens.
Bordalo perguntou: Por que não existem planos de segurança de barragens?
Mas o executivo afirmou que tem conhecimento de apenas oito barragens com plano de segurança e que todas passam por simulados e estão localizadas em Parauapebas, Canaã dos Carajás, Marabá e São Félix do Xingu.
Desse total, quatro existem populações próximas com até 80 pessoas. Porém, disse que sobre as demais barragens, a responsabilidade é da Diretoria de Saúde e Segurança e área de Geotecnia.
Em todas as oitivas, os convocados mantiveram a mesma linha, com respostas que deixam dúvidas sobre a atuação e o compromisso da Vale com o desenvolvimento do estado.
“Se há uma estratégia do jurídico da Vale em ficar protelando, dando a impressão de que não tem conhecimento sobre determinado assunto, eles estão avolumando o processo. E nós vamos continuar chamando essas pessoas para prestarem esclarecimentos. Nós somos a caixa de ressonância do povo e a população exige respostas”, comentou o presidente da CPI, deputado Eraldo Pimenta.
Diante de um cenário positivo de alta lucratividade, a companhia não prioriza iniciativas no Pará na mesma proporção, mantém discurso de desenvolvimento em várias esferas, mas não consegue responder quando questionados.
A empresa Vale em uma de suas apresentações à comissão informou que uma das contrapartidas ao desenvolvimento do estado seria fazer investimentos em hospitais e fez referências às iniciativas de melhoramento ao hospital de Ourilândia do Norte, que segundo o relator, o que existe no local são obras inacabadas.
COBRANÇAS -
Os deputados paraenses querem que a Vale cumpra suas promessas e priorize o Pará em seus investimentos. É em solo paraense que a empresa explora minérios e fatura bilhões, porém, ainda contribui pouco.
Os parlamentares esperam há pelo menos 10 anos pela promessa de construção da Aços Laminados do Pará – a Alpa – em Marabá, uma promessa da mineradora que não saiu do papel.
Outro investimento que os parlamentares cobram é a instalação de uma unidade do projeto “Tecnored”, que utiliza tecnologia produtora de ferro gusa de baixo carbono (gusa verde). Mas dois anos já se passaram e o projeto não avançou.
Um problema apontado é a inexistência de um plano de comunicação e de diálogo permanente com as comunidades que vivem no entorno dos empreendimentos com barragens no Pará, além da participação mínima de trabalhadores locais e das comunidades nos caminhos da empresa.
Desde 2011, a Vale também faz parte do Consórcio Norte Energia, responsável pela Hidrelétrica de Belo Monte. O projeto recebe críticas de ambientalistas pelos impactos socioambientais provocados de forma irreversíveis e pelo descumprimento de uma série de condicionantes.
FATURAMENTO
A Vale registrou lucro líquido de R$ 30,56 bilhões no primeiro trimestre de 2021 e R$ 26 bilhões no ano de 2020. O Pará responde pela liderança na mineração brasileira com 51%, porém, esses resultados não contemplam na mesma proporção os investimentos aplicados pela empresa no Estado.
Desde 1967 inicia a história da empresa Vale no Estado do Pará, com a descoberta da primeira jazida de minério de ferro de Carajás, região onde está localizada a maior mina a céu aberto do mundo. A companhia colhe altos lucros com a exploração mineral em solo paraense, mas gera contradições acerca dos seus propósitos de sustentabilidade ao meio ambiente e com as comunidades no entorno dos seus empreendimentos.

